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Squishy transforma valores religiosos e sociais em aprendizagem nas aulas de Ensino Religioso em Forquilhinha

Experiência desenvolvida por mim, Lúcio Vânio Moraes, nas escolas EEB José Aléssio e EEB Prof. Jakob Arns une ludicidade, criatividade e reflexão sobre valores religiosos e sociais

Uma experiência pedagógica desenvolvida por mim, Lúcio Vânio Moraes, nas escolas EEB José Aléssio e EEB Prof. Jakob Arns, da Rede Municipal de Ensino de Forquilhinha, transformou um objeto simples e muito apreciado pelas crianças em uma ferramenta de aprendizagem nas aulas do componente curricular de Ensino Religioso.

A atividade foi realizada durante os meses de agosto e setembro, com estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, e nasceu da percepção sobre o interesse das crianças pelos chamados squishies, objetos macios que podem ser apertados e manipulados, geralmente utilizados como brinquedos ou para momentos de descontração. A partir desse interesse, percebi a possibilidade de transformar o objeto em um recurso pedagógico para trabalhar conteúdos relacionados aos valores religiosos e sociais.

Por considerar a experiência muito interessante e, principalmente, pelo envolvimento demonstrado pelos estudantes, que adoraram realizar o trabalho em sala de aula, decidi socializar essa prática pedagógica. A intenção é compartilhar uma experiência que mostrou como elementos presentes no cotidiano infantil podem ser incorporados ao processo de ensino e aprendizagem, tornando as aulas mais atrativas, participativas e significativas.

A utilização de elementos presentes no universo infantil como recursos pedagógicos encontra respaldo nos estudos sobre a ludicidade. Kishimoto (2009) discute as relações entre jogo, brinquedo, brincadeira e educação, destacando as possibilidades educativas que esses recursos podem assumir quando utilizados com intencionalidade pedagógica. Nesse sentido, o squishy deixou de ser apenas um objeto de interesse das crianças e passou a integrar uma proposta planejada para favorecer a aprendizagem de conteúdos do Ensino Religioso.

A proposta partiu de uma ideia bastante simples: confeccionar o próprio squishy utilizando materiais acessíveis e, ao mesmo tempo, inserir nele palavras relacionadas aos valores trabalhados durante as aulas.

O trabalho teve início com uma folha de papel sulfite, dobrada ao meio para formar a estrutura do objeto. No quadro, foram apresentadas aproximadamente 15 palavras relacionadas a valores religiosos e sociais, como respeito, amor, perdão, paz, fé, união, afeto, empatia, sinceridade, bondade e amizade, entre outras.

Cada palavra foi discutida e trabalhada em sala de aula, possibilitando que os estudantes refletissem sobre seus significados e sobre a importância desses valores na convivência com os colegas, com a família e com as demais pessoas da sociedade.

Nesse processo, o brincar passou a ocupar um lugar importante como possibilidade de aprendizagem. Brougère (1998) compreende o brincar como uma atividade que possui significado social e que também envolve processos de aprendizagem. Para o autor, “brincar não é uma dinâmica interna do indivíduo, mas uma atividade dotada de uma significação social precisa que, como outras, necessita de aprendizagem” (Brougère, 1998, p. 104).

Essa compreensão aproxima-se da experiência desenvolvida, pois o brincar não foi pensado como uma atividade isolada do processo educativo. Ao contrário, esteve associado à leitura, à escrita, à reflexão, à criatividade e à convivência. A atividade lúdica foi utilizada como caminho para aproximar os conteúdos trabalhados em sala do universo das crianças.

 

Depois desse momento de reflexão, os estudantes passaram à confecção e personalização de seus próprios squishies. As palavras trabalhadas foram escritas no objeto, que também recebeu desenhos e diferentes formas de decoração.

A liberdade criativa fez parte da atividade. As crianças puderam representar elementos relacionados à sua vida cotidiana, incluindo animais, símbolos de seus times de futebol e imagens religiosas que contemplassem suas referências e experiências. Dessa forma, cada produção se tornou única, carregando um pouco da identidade, da criatividade e das vivências de cada estudante.

Essa possibilidade de atribuir significados próprios ao objeto utilizado na brincadeira também dialoga com as contribuições de Brougère (1997), que compreende o brinquedo como um objeto inserido em determinado contexto cultural. 

Para o autor, o brinquedo não apresenta apenas uma função prática, mas também carrega significados sociais e culturais. Assim, quando as crianças escolheram imagens religiosas, animais, símbolos de seus times e outros elementos para decorar seus squishies, também estavam expressando aspectos de sua cultura, de suas experiências e de sua identidade.

Brougère (2001, p. 8-9) afirma que “o brinquedo é dotado de um forte valor cultural”, justamente por reunir significados produzidos socialmente. Na experiência realizada, essa dimensão cultural ficou evidente na diversidade das escolhas feitas pelos estudantes, uma vez que cada criança utilizou o mesmo material de maneira particular, atribuindo-lhe características relacionadas ao seu próprio universo.

Para a confecção, foram utilizados materiais simples, como folha de ofício, fita adesiva, lápis de cor, canetinhas, cola, tesoura e materiais para o preenchimento. Depois de decorar o papel, as laterais foram fechadas com fita adesiva, deixando uma abertura para colocar o material que daria volume e maciez ao squishy.

Entre os materiais utilizados para o preenchimento estavam algodão, esponja e pequenos pedaços de papel higiênico. Durante a atividade, as próprias crianças também participaram da descoberta de outras possibilidades e observaram que até mesmo sacolas plásticas poderiam ser utilizadas como material de preenchimento.

 

Todo esse processo possibilitou que as crianças participassem ativamente da construção do próprio objeto. Elas precisaram recortar, dobrar, pintar, escrever, colar e organizar os materiais, desenvolvendo diferentes habilidades ao longo da atividade.

Com os squishies prontos, iniciou-se uma etapa que uniu brincadeira e aprendizagem. As crianças puderam brincar, apertar e manipular os objetos enquanto retomavam a leitura das palavras escritas neles. Assim, o momento lúdico também se transformou em uma oportunidade de revisar os conteúdos e reforçar os significados dos valores trabalhados.

A relação entre brincar e criatividade também pode ser compreendida a partir de Winnicott. Para o autor, o brincar ocupa um espaço importante na expressão criativa do indivíduo. Em uma passagem apresentada por Brougère (1998, p. 103), Winnicott afirma que “se brincar é essencial é porque é brincando que o paciente se mostra criativo” (Winnicott, 1975 apud Brougère, 1998, p. 103).

Essa perspectiva ajuda a compreender a importância de oferecer às crianças oportunidades para criar e experimentar. Na atividade com os squishies, a criatividade esteve presente desde a escolha das palavras e dos desenhos até a maneira como cada estudante organizou e personalizou sua produção.

O resultado foi uma atividade que ultrapassou a simples confecção de um brinquedo. O processo envolveu criatividade, concentração, leitura, escrita, coordenação motora, expressão artística, interação e troca de conhecimentos entre os estudantes.

Ao recortar, dobrar, colar, pintar e montar seus squishies, as crianças também desenvolveram habilidades relacionadas à coordenação motora fina e ampla. A necessidade de acompanhar cada etapa da produção contribuiu ainda para estimular a atenção, a concentração e o foco.

Outro aspecto importante foi a possibilidade de interação entre os colegas. Durante a confecção, as crianças compartilharam ideias, observaram as produções umas das outras, trocaram experiências e conheceram diferentes maneiras de representar os valores e os elementos presentes em suas vidas.

 

A atividade também proporcionou momentos de aprendizagem por meio do uso de diferentes materiais e técnicas. O emprego de lápis de cor, canetinhas, cola, recortes e pinturas estimulou a criatividade e permitiu que cada estudante desenvolvesse sua produção de acordo com suas preferências e possibilidades.

Nesse sentido, a atividade lúdica também se constituiu como uma experiência de interação social. Para Brougère (1998), a brincadeira não deve ser compreendida apenas como uma atividade espontânea e individual, mas como uma prática inserida em determinado contexto social e cultural. Dessa forma, as trocas realizadas entre os estudantes durante a confecção dos squishiestambém fizeram parte do processo de aprendizagem.

A experiência mostrou que a escola pode ser entendida como um espaço de descobertas, experiências e construção do conhecimento, onde recursos aparentemente simples podem ganhar novos significados quando utilizados com intencionalidade pedagógica.

A escola é também um lugar onde se constroem ideias, conhecimentos e experiências. É um espaço que pode ser compreendido como um verdadeiro laboratório de aprendizagem, no qual o estudante experimenta, cria, questiona, compartilha e aprende com os outros.

Nesse contexto, o brinquedo e a brincadeira podem assumir uma função educativa quando inseridos em propostas que possuem objetivos definidos. Kishimoto (2009) ressalta as possibilidades do jogo, do brinquedo e da brincadeira no processo educativo, demonstrando que a ludicidade pode contribuir para a aprendizagem quando integrada ao planejamento pedagógico.

No Ensino Religioso, a proposta possibilitou trabalhar valores fundamentais para a convivência humana, como respeito, empatia, amor, paz, amizade, perdão, bondade, união, sinceridade e fé, valorizando o diálogo e o respeito às diferentes experiências e manifestações presentes no ambiente escolar.

A atividade também permitiu que os estudantes expressassem aspectos de sua identidade e de seu cotidiano. Ao escolher desenhos, símbolos, imagens religiosas, animais, times de futebol e outros elementos para decorar seus squishies, cada criança teve a oportunidade de representar um pouco de seu universo pessoal.

 

Essa liberdade de criação favoreceu ainda a troca de conhecimentos entre os colegas. As crianças puderam observar diferentes produções, conhecer outras formas de pensar e perceber que cada pessoa possui experiências, gostos e referências próprias.

O que começou com a observação de um objeto que despertava a curiosidade e o interesse das crianças transformou-se em uma experiência educativa significativa. O squishy, tão simples em sua forma, tornou-se um instrumento para aprender, criar, brincar, refletir e compartilhar conhecimentos.

Para mim, enquanto professor, essa experiência reforçou a importância de observar o cotidiano dos estudantes e buscar, a partir dos seus interesses, novas possibilidades de aprendizagem. Quando o professor reconhece aquilo que desperta o interesse das crianças e transforma esse interesse em uma oportunidade de aprendizagem, o conteúdo escolar pode ganhar novos sentidos.

A proposta também mostrou que não são necessários recursos sofisticados para desenvolver uma atividade pedagógica significativa. Com uma simples folha de papel, fita adesiva, tesoura, materiais para preenchimento e recursos de desenho e pintura, foi possível construir uma experiência que envolveu diferentes dimensões do processo educativo.

Mais do que confeccionar um objeto, os estudantes tiveram a oportunidade de aprender, criar, brincar, ler, escrever, refletir, compartilhar e conviver. A atividade aproximou os conteúdos do componente curricular de Ensino Religioso do universo das crianças, utilizando a ludicidade como caminho para favorecer a aprendizagem.

A experiência reforça, assim, a importância de uma educação que também valoriza a ludicidade, a criatividade e a participação dos estudantes. Afinal, quando as crianças aprendem fazendo, criando e brincando, o espaço escolar se torna ainda mais rico em possibilidades de aprendizagem e de construção coletiva do conhecimento.

As contribuições de Winnicott, Brougère e Kishimoto ajudam a compreender teoricamente aquilo que foi observado durante a experiência: brincar, criar e aprender podem estar profundamente relacionados. O valor pedagógico da atividade não esteve apenas no objeto produzido, mas no processo vivido pelas crianças, nas relações estabelecidas e nos significados construídos ao longo da proposta.

 

Socializar essa experiência é, portanto, uma forma de compartilhar uma prática que nasceu de uma observação simples, mas que ganhou significado pedagógico: o interesse das crianças por um objeto pode se transformar em uma oportunidade para ensinar, aprender e trabalhar valores essenciais para a convivência em sociedade.

O squishy deixou de ser apenas um objeto de descontração e passou a fazer parte de uma experiência de aprendizagem. Entre apertos, desenhos, cores, palavras, brincadeiras e conversas, as crianças puderam aprender que valores como respeito, amor, paz, amizade, empatia, bondade e união também podem ser vivenciados no cotidiano escolar.

Assim, uma atividade aparentemente simples revelou-se uma rica possibilidade pedagógica, mostrando que aprender pode ser também uma experiência prazerosa, criativa e significativa.



Referências

 

BROUGÈRE, Gilles. A criança e a cultura lúdica. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 24, n. 2, p. 103-116, jul./dez. 1998.

 

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1997.

 

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e companhia. São Paulo: Cortez, 2004.

 

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2009.

 

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

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