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Guardiões da História: Colecionadores mantêm viva a epopeia do futebol carbonífero e os mantos sagrados de Criciúma

Para quem olha de fora, pode parecer apenas um amontoado de tecido, poliéster, algodão e escudos desbotados pelo tempo. Mas para quem vive o colecionismo de camisas de futebol, cada gola, cada costura e cada patrocínio antigo funcionam como um verdadeiro portal para o passado. No episódio #014 do podcast Antes do Pijama, (Canal do YouTube) a conversa teve cheiro de história, de gramado antigo e de paixão irracional. Os convidados da noite foram dois verdadeiros “arqueólogos” da bola: Evandro Lúcio, do Bairro Quarta Linha, em Criciúma e Fernando Geremias, de Orleans, detentores de acervos impressionantes que ajudam a contar a rica trajetória do futebol sul-catarinense.
Seja reunindo centenas de camisas do Tigre, relíquias do extinto Esporte Clube Metropol ou documentos raríssimos de uma época áurea, os dois colecionadores provam que preservar a memória é um ato de resistência contra o esquecimento.

A centelha da paixão: Como tudo começou
A jornada de um colecionador raramente começa com um plano de negócios; ela nasce de afetos infantis, figurinhas de álbuns, campinhos de terra batida e, claro, de um esbarrão com a sorte.
Fernando Geremias carrega o colecionismo no DNA desde cedo. Antes de focar nos mantos carvoeiros em 2010 — após se indignar com o tamanho de um patrocínio vermelho que poluía uma belíssima camisa da Penalty —, Fernando colecionou cédulas e moedas de mais de 180 países. Mas o amor pelo Criciúma e pela história de sua região o redirecionou. Hoje, sua coleção impressiona: são cerca de 880 camisas do Tigre, somadas a outras 250 de clubes catarinenses e itens raríssimos.
Já Evandro Lúcio, com sua formação acadêmica em História, deu o pontapé inicial em 2012. Enquanto tirava a CNH, conheceu um colega de aula cujo pai guardava camisas antigas. Ao adquirir uma relíquia de 1986 — o ano do primeiro título estadual do Criciúma —, Evandro foi fisgado de vez. Hoje, sua coleção gira em torno de 200 peças cuidadosamente selecionadas, fruto de um garimpo cirúrgico que envolve contatos diários com ex-jogadores das décadas de 1980 e 1990.

O Real Madrid catarinense: A Era de Ouro do Metropol
Uma das grandes aulas proporcionadas pelo episódio foi a imersão na história do Esporte Clube Metropol, clube de bairro gerido pela Carbonífera Metropolitana nos anos 1960.
Conforme Fernando, para os mais novos que desconhecem o fenômeno, o Metropol foi uma verdadeira potência e o primeiro time realmente profissional do estado de Santa Catarina. Com o respaldo de uma empresa que empregava mais de 4 mil funcionários, o clube surgiu curiosamente de uma reivindicação trabalhista. Nos anos 50, as greves nas minas de carvão eram constantes. Quando a família Freitas e Guglielme assumiram o controle da carbonífera, os operários fizeram um pedido inusitado: queriam melhores condições de trabalho, máscaras melhores e... um time de futebol para enfrentar os rivais e o tradicional Comerciário.
O resultado foi avassalador. Em seus primeiros anos como profissional, o Metropol emendou títulos estaduais seguidos, tornando-se tricampeão e aplicando um verdadeiro complexo de inferioridade nos adversários — o Comerciário (atual Criciúma) chegou a passar quase dez anos sem vencer o rival da carbonífera. O Metropol era tão dominante que vencia o poderoso Grêmio de Porto Alegre (então octacampeão gaúcho) e excursionou pela Europa aplicando seu futebol espetacular.
Uma das curiosidades mais marcantes levantadas no bate-papo envolve o mascote do clube: o carneiro. Como os operários do Metropol pararam de fazer greves após a criação do time, o centro da cidade passou a acusá-los de serem “carneirinhos” nas mãos dos patrões. Sem perder o rebolado, os dirigentes adotaram o carneiro literal, desfilando com o animal dentro do estádio e transformando a provocação em símbolo de identidade.

A transição, as cores e a união das torcidas
A história do futebol em Criciúma é uma colcha de retalhos fascinante. Com o encerramento das atividades do Metropol em 1969 e a posterior vacância de times profissionais na cidade, o Comerciário retomou suas atividades em 77, mudando o nome para Criciúma Esporte Clube em 1978. No entanto, para atrair de vez a imensa massa torcedora que antes vibrava pelo Metropol e pelo Atlético Operário, o clube mudou suas cores em 1984, adotando o preto, o amarelo e o branco — nascendo aí o visual que consagraria o Tigre nacionalmente com conquistas históricas como a Copa do Brasil de 1991.
Hoje, os colecionadores ressaltam que o Criciúma cumpriu um papel fundamental: uniu sob um mesmo escudo todas as antigas correntes futebolísticas da cidade, gerando um sentimento clubístico inegável que movimenta a economia e a identidade de toda a região sul catarinense.

Relíquias, tesouros e o “Santo Graal” do colecionador
Manter um acervo desse porte exige técnica e muito suor (ou melhor, muito cuidado para o tecido não mofar). As camisas ficam guardadas longe da luz solar direta e, preferencialmente, protegidas em plásticos individuais. O uso das peças em dias de jogos foi abolido pelos colecionadores após alguns sustos com peças históricas.
Entre as preciosidades exibidas no programa, destacam-se:
A camisa de 1967 do Metropol, peça de jogo raríssima obtida diretamente após negociação com a família do lendário técnico João Lima.
A camisa do Bolívar na altitude, trazida por um jogador em 1992 durante a histórica participação do Criciúma na Copa Libertadores da América.
O manto de 1986 com patrocínio de carvão e azulejo, relíquias sagradas do primeiro estadual do Tigre.
A camisa do Paulinho Criciúma, usada no épico amistoso em que o Tigre venceu o Flamengo por 4 a 2 em 1982, diante de um Heriberto Hülse lotado por uma cidade de apenas 80 mil habitantes.
Apesar de já possuírem centenas de itens, o “Santo Graal” dos sonhos de Evandro e Fernando continua sendo o mesmo: uma camisa original de jogo do Comerciário datada de 1968, com a gola clássica estilo “etiqueta atleta” idêntica à usada pela Seleção Brasileira da época. Peças dos anos 60 do Comerciário são praticamente extintas e viraram mitos urbanos do colecionismo.

Apoio familiar e um modo de vida
Sobreviver a essa paixão consumista exige diplomacia conjugal. Enquanto as esposas no início estranham caixas chegando pelo correio e valores investidos em “pedaços de tecido”, o tempo acaba transformando as companheiras em parceiras de jornada. Como bem resumiram os convidados, colecionar não é apenas acumular bens; é um modo de viver. É impossível para um verdadeiro colecionador andar pela rua, ver um senhor na praça ou passar por uma mecânica sem reparar na camisa que a pessoa está vestindo e puxar assunto sobre o Tigre.
No fim das contas, Evandro e Fernando deixam um recado para quem está começando: paciência é a alma do negócio.
No colecionismo, a pressa faz o novato gastar o que não deve. O verdadeiro segredo está no garimpo, na construção de uma rede sólida de amizade com ex-atletas e na certeza de que, enquanto houver colecionadores apaixonados, a história de Criciúma jamais será apagada.


Link do canal 'Antes do Pijama', para assistir o episódio completo no youtube: ​www.youtube.com/@AntesdoPijama

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