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Lúcio Vânio Moraes

Alzira Rabello Elias foi prefeita interina de Araranguá (1947)

O historiador araranguaense Jairo Cesaescreveu recentemente a nova obra intitulada "Tramas, Intrigas e Tensas Disputas Eleitorais: História Política de Araranguá (1880-2000)", publicada pela Editora Insular, que revisita 120 anos da política local. Com 624 páginas e sete capítulos, o livro analisa a evolução das oligarquias, a administração de prefeitos, a influência da Revolução de 1930 e, no capítulo 5, inclui a participação feminina na política de Araranguá.

No último dia 3 de abril, Araranguá completou 146 anos de emancipação político-administrativa e, nesses anos todos, Jairo Cesa analisou que apenas uma mulher foi prefeita interinamente por apenas 45 dias, e somente quatro vereadoras fizeram parte da Câmara Municipal de Araranguá. A questão de gênero e a superioridade masculina são tão presentes no contexto histórico de Araranguá que, no último pleito municipal, em 2024, dentre tantas mulheres candidatas a prefeita, vice-prefeita e vereadoras que se colocaram à disposição para participar da política, nenhuma foi eleita na cidade.

Atualmente, a Câmara Municipal de Araranguá (SC) é composta por 15 vereadores, todos homens, para a legislatura 2025-2028. Eles foram eleitos nas eleições municipais de 6 de outubro de 2024 para representar o município nos próximos quatro anos.

Na visão de Jairo Cesa (2025), em seus 145 anos completos de emancipação político-administrativa, os espaços de poder no legislativo e executivo de Araranguá foram ocupados expressivamente por homens. Em diálogo com Foucault (1979, p. 182 apud Cesa, 2025, p. 375), em 32 pleitos eleitorais ocorridos, apenas quatro mulheres, em um “oceano” de centenas de homens, tiveram que enfrentar muitos obstáculos, superar o medo, o preconceito, criar estratégias de micropoder para driblar a discriminação de gênero e se eleger para compor uma cadeira no legislativo municipal.

A primeira prefeita interina de Araranguá foi a saudosa Alzira Rabello Elias, conhecida por muitos como dona Zizinha. O historiador Jairo Cesa realizou diversas entrevistas com dona Sônia Rabello Elias, 87 anos, filha de dona Alzira Rabello Elias, e teve acesso ao relatório biográfico de Alzira Rabello Elias, que foi lido na sessão solene no dia 6 de março de 2025 por dona Sônia Rabello Elias. A transcrição do relatório foi realizada pelo autor Jairo Cesa. Ela disse que:

“Minha mãe nasceu em 31 de agosto de 1917. Filha do juiz de Direito de Araranguá, Dr. Américo Cavalcanti de Barros Rabello, e da dona de casa Maria Luck Rabello. Minha mãe não conheceu o pai, pois, quando ele faleceu, ela tinha quatro meses. Minha mãe teve seis irmãos, que lhe deram muito amor e carinho para suprir a falta do pai. Fez o curso completo no Grupo Escolar David do Amaral, recebendo sempre ótimas notas. Casou-se com Seme Jorge Elias, do comércio local, aos 18 anos de idade. Três anos e meio depois, seu marido adoeceu e esteve doente por 23 anos, internado no Sanatório São José, em Porto Alegre, e na Colônia Santana, em Florianópolis. Em virtude de um derrame cerebral, meu pai perdeu a memória. O sofrimento foi imenso. Vou abrir um parêntese aqui para dizer que conheci meu pai, porque minha mãe me levava, nas férias de julho e dezembro, para visitá-lo e levar agasalhos de inverno e de verão, cigarros e frutas cristalizadas que ela preparava.”

Em um relatório que era lido em vida por dona Alzira Rabello Elias em atividades de homenagens, constam os períodos em que foi prefeita de Araranguá. “Tivemos uma filha, Sônia Rabello Elias, que me deu muitas alegrias, sempre me completou muito e é minha companheira em todos os momentos da minha vida. Também não posso deixar de mencionar todos os meus familiares e amigos. Tive que ir à luta para conseguir emprego para manter a mim e à minha filha. Comecei a trabalhar na prefeitura, no governo do prefeito Ruy Stocler de Souza, a princípio como escriturária e depois como secretária. Passaram pela prefeitura, durante o tempo em que lá trabalhei, nove prefeitos. Naquele tempo, só os quatro últimos foram eleitos, e os outros foram nomeados pelo interventor federal Dr. Udo Deeke. Por duas vezes estive à frente do executivo municipal; foi um caso inédito em todo o Brasil. O prefeito da época, o Sr. Edmundo Grizard, licenciou-se por tempo indeterminado para fazer política, porque naquele momento iam começar as campanhas eleitorais para governador do estado, em janeiro de 1946. Fui nomeada pelo interventor federal Udo Deeke para substituir Edmundo Grizard. No seu afastamento, eu exercia prática no serviço da prefeitura e trabalhava há muito tempo. Fui secretária e presidente da Legião Brasileira de Assistência do núcleo de Araranguá. Promovemos diversos natais para pessoas carentes. Atendemos, com visitação e auxílio, às famílias dos pracinhasque estavam em combate na Segunda Guerra Mundial. Fui coordenadora-presidente do Apostolado da Oração durante 30 anos e, por 16 anos, fui tesoureira. Hoje continuo apenas como zeladora. Envolvi-me com muitos eventos na cidade e na igreja. Em 6 de dezembro de 1947, fui designada por portaria do Sr. Edmundo Grizard para responder pelo expediente da prefeitura e fazer a entrega do governo municipal ao Sr. Afonso Ghizzo, eleito em 8 de dezembro pela União Democrática Nacional (UDN), partido de oposição ao governo de Edmundo Grizard, que deixaria o cargo. Nas solenidades festivas do centenário do município, junto com os demais prefeitos, recebi das mãos do Dr. Jorge Bornhausen, governador do estado, uma placa de prata alusiva à data, o que me gratificou muito. Tenho recebido muitas homenagens, com palavras bondosas, de carinho e estímulo, como já ocorreu duas vezes na Câmara Municipal desta cidade que tanto amo. Em ambas as vezes, no Dia Internacional da Mulher, recebi, com carinho, palavras bondosas, amigas e incentivadoras de cada um dos senhores vereadores, além de um bonito quadro de honra ao mérito, que trazia dizeres das mais belas e dignificantes frases, que muito me emocionaram.Além disso, projetaram uma lei criando um troféu com o meu nome, que se destinará às pessoas com maiores destaques em todos os seus segmentos. Também, em outra data alusiva ao Dia Internacional da Mulher, fui homenageada com uma página inteira no Jornal da Manhã, concedendo entrevista e com diversas fotos tiradas pelo senhor Jorge Zapeline, de Criciúma. Não posso deixar de mencionar a sessão especial da Assembleia Legislativa, realizada aqui em Araranguá, no dia 2 de maio de 2002, na qual também recebi homenagem com um troféu da mesma assembleia, juntamente com deputados e ex-prefeitos de Araranguá. Fui entrevistada por muitos jornais, como Preto no Branco, Jornal da Manhã, Diário Catarinense, Tribuna do Vale, Correio do Sul, Mala Direta, além de rádio e televisão RBS.Em outra ocasião, fui convidada e recebi lindas flores da ala feminina do PFL desta cidade. Muito emocionantes e tocantes foram as festividades realizadas em São Joaquim sobre meu falecido pai. Papai foi o primeiro juiz de Direito da Comarca de São Joaquim e fundou o clube Astrea, que completou seu centenário no dia 11/02/1999. Os dirigentes do clube, quando souberam que ainda existia uma filha de papai, por duas vezes me procuraram para conhecer e trazer os documentos das festividades que seriam realizadas na data e durante o ano. Foi linda a comemoração. No evento, eu descerrei a placa comemorativa com o nome do Dr. Américo Cavalcanti de Barros Rabello como fundador do clube. À noite, no baile, foram entregues a mim e aos demais presidentes do clube o troféu com a fotografia impressa em bronze e com o nome do meu falecido pai. Essa é a minha vida. Hoje vivo feliz ao lado de minha filha, familiares e amigos, sempre demonstrando, com todo o carinho, a minha amizade. Alzira Rabello Elias. Nunca fui política e muito menos professora. Eu fazia os recibos na prefeitura, como secretária, e as professoras iam até a tesouraria para receber seus vencimentos.” (Cesa, 2025, p. 417).


Alzira Rabello Elias. Assumiu a prefeitura de Araranguá de forma interina entre 9/1/1947– 30/1/1947


Este texto também será publicado no Jornal Folha Regional, em formato impresso.

 

REFERÊNCIAS 

 

CESA, Jairo. Tramas, intrigas e tensas disputas eleitorais. História política de Araranguá (1880-2000). Florianópolis: Insular, 2025.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Folha Regional.

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

Lúcio Vânio Moraes - Historiador

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