Na coluna de hoje, o destaque é a formação acadêmica de Charles de Sousa, o início de sua trajetória no jornalismo, sua profissionalização, a história do Jornal Folha Regional e os processos de transformação e inovação tecnológica que marcaram sua carreira e a evolução do periódico ao longo das últimas décadas.
A entrevista que deu origem a esta reportagem foi concedida por Charles de Sousa em 22 de julho de 2026, por meio do WhatsApp, ao historiador Lúcio Vânio Moraes. Para a realização da entrevista, foi utilizado um questionário estruturado, composto por perguntas que contemplaram diferentes fases de sua trajetória de vida.
Como já dito na coluna anterior, o roteiro abordou temas relacionados à infância, adolescência, vida adulta, formação acadêmica, trajetória profissional, criação e consolidação do Jornal Folha Regional, além das transformações tecnológicas no jornalismo e dos desafios contemporâneos enfrentados pelos profissionais da comunicação.
Formação acadêmica e o desejo permanente de aprender
A educação sempre ocupou espaço importante em sua trajetória.
Charles de Sousa possui duas graduações. A primeira concluiu graduação em Pedagogia, cursada na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em 2005.
E a segunda, mesmo tendo experiência que veio com a prática do dia a dia no jornal, concluiu a graduação em Jornalismo, pela Faculdade SATC (Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina), em 2018.
Antes do ensino superior, sua formação escolar ocorreu em Criciúma. Os primeiros estudos aconteceram na Escola João Dagostim, localizada no bairro da Quarta Linha. Como a escola oferecia apenas até a antiga oitava série, precisou transferir-se para o tradicional Colégio Sebastião Toledo dos Santos, conhecido regionalmente como "Colegião", onde concluiu o ensino médio.
Além da formação universitária, realizou diversos cursos técnicos relacionados à área gráfica e jornalística, buscando acompanhar a constante evolução da profissão.
O trabalho começou cedo
Muito antes de se tornar jornalista, Charles já conhecia a rotina do trabalho. Ainda adolescente, iniciou sua vida profissional aos 12 anos, trabalhando na danceteria Night Sound.
Posteriormente passou por uma lanchonete e, mais tarde, tornou-se office-boy na Cerâmica De Lucca, função que desempenhava aos 15 e 16 anos de idade.
Foi justamente nesse período que surgiu a oportunidade que mudaria sua vida. O convite para trabalhar no Jornal do Sul representou o início definitivo de sua carreira na comunicação. A partir dali, o jovem que havia começado distribuindo documentos e realizando serviços administrativos mergulhava em um universo completamente novo, onde aprenderia diagramação, produção gráfica, impressão e, posteriormente, reportagem e edição.
Sem imaginar, aquele primeiro emprego na imprensa seria o ponto de partida para uma história que, décadas depois, resultaria na consolidação de um dos jornais mais longevos da imprensa regional catarinense.
O nascimento do jornal mensal Quarta Linha News e a evolução da imprensa regional
Ainda muito jovem, Charles de Sousa já havia descoberto qual caminho desejava seguir. Depois de iniciar sua trajetória profissional no Jornal do Sul e no Jornal de Urussanga, atuando na diagramação e aprendendo todos os processos envolvidos na produção de um periódico impresso, decidiu dar um passo que mudaria definitivamente sua história profissional.
Aos 17 anos de idade, quando muitos jovens ainda buscavam definir qual profissão seguiriam, Charles já sonhava em construir um veículo de comunicação próprio. O projeto ganhou forma com o jornal mensal Quarta Linha News com algumas edições e pouco tempo depois, em fevereiro de 1995, nascia oficialmente a Folha Regional.
Mais do que criar um jornal, o jovem empreendedor assumia a responsabilidade de registrar a história cotidiana de municípios do Sul catarinense, dando voz às comunidades, acompanhando a política local, divulgando acontecimentos culturais, esportivos, econômicos e sociais e preservando acontecimentos que, décadas depois, se transformariam em memória histórica.
A primeira edição da Folha Regional foi produzida em Criciúma. Inicialmente, o jornal possuía características de um periódico comunitário, concentrando sua cobertura nos bairros da cidade. Entretanto, Charles percebeu rapidamente que existia espaço para ampliar a atuação editorial.
Foi então que decidiu expandir a circulação para o município de Maracajá, cidade que se tornaria uma das principais bases da história do jornal.
Essa mudança representou um divisor de águas.
Com a ampliação da distribuição, o periódico também passou por mudanças editoriais, alterou sua identidade, consolidou o nome Folha Regional e passou a circular em formato quinzenal e logo depois semanal, fortalecendo sua presença em toda a região.
Charles recorda que esse processo ocorreu durante o final da administração do então prefeito Lavino Alano da Silva, momento em que o município vivia importantes transformações administrativas.
Ao longo dos anos, a Folha Regional deixou de ser apenas um jornal comunitário para tornar-se um importante registro histórico da região, acompanhando eleições, obras públicas, desenvolvimento econômico, crescimento urbano, atividades culturais, esportivas e os acontecimentos que marcaram diferentes gerações.
Hoje, ao completar 31 anos de circulação, o jornal tornou-se uma referência para pesquisadores, professores, estudantes e leitores que buscam compreender a história recente dos municípios do Sul de Santa Catarina.
Fazer jornal era muito diferente
Ao recordar os primeiros anos da Folha Regional, Charles relembra um período em que produzir um jornal exigia conhecimento técnico, paciência e muito trabalho manual.
Muito antes dos computadores modernos, dos programas de editoração eletrônica e da internet, todo o processo gráfico era realizado praticamente de forma artesanal.
O jornal era produzido utilizando o sistema de paste-up, técnica em que textos impressos eram recortados manualmente e colados sobre grandes folhas de montagem. Cada fotografia exigia um procedimento específico.
Primeiramente era confeccionado um fotolito, espécie de negativo em grande formato utilizado para produzir as chapas de impressão.
As páginas precisavam ser montadas cuidadosamente, deixando espaços exatos para a colocação das imagens. Qualquer erro significava refazer praticamente toda a página.
Charles de Sousa explica que a impressão também era um desafio logístico.
Como a empresa não possuía estrutura gráfica própria, o material era enviado de ônibus até Florianópolis. O serviço era terceirizado junto ao Diário Catarinense, onde as chapas eram produzidas e o jornal impresso. Depois de finalizado, todo o material retornava novamente de ônibus para ser distribuído aos leitores.
Hoje, quando uma página pode ser enviada instantaneamente pela internet em poucos segundos, esse processo parece distante. Na década de 1990, entretanto, representava a rotina diária de centenas de jornais impressos espalhados pelo Brasil.
A revolução das máquinas digitais
Outro aspecto marcante lembrado por Charles de Sousa diz respeito à fotografia. Durante muitos anos, o trabalho jornalístico dependia exclusivamente das câmeras analógicas. Cada filme possuía um número limitado de poses.
Não era possível visualizar imediatamente a fotografia realizada. O jornalista precisava confiar na experiência adquirida ao longo dos anos. Somente depois da revelação do filme era possível saber se alguma imagem realmente havia ficado boa para publicação.
Charles relembra que, muitas vezes, fazia três ou quatro fotografias de um mesmo evento sem qualquer garantia de que alguma serviria para ilustrar a reportagem. A chegada das câmeras digitais mudou completamente essa realidade. Para ele, essa foi uma das maiores revoluções tecnológicas vividas pela imprensa. A possibilidade de visualizar instantaneamente a fotografia, repetir quantas vezes fosse necessário e encaminhar os arquivos rapidamente para a redação transformou profundamente o trabalho dos jornalistas.
Posteriormente vieram a internet, os computadores mais modernos, os programas de editoração eletrônica e as plataformas digitais, modificando não apenas a produção dos jornais, mas também a forma como as pessoas passaram a consumir notícias.
O impresso continua vivo
Apesar de reconhecer todas essas mudanças tecnológicas, Charles acredita que o jornal impresso ainda possui um espaço importante na sociedade.
Segundo ele, a velocidade das redes sociais tornou a circulação das notícias praticamente instantânea.
Ao mesmo tempo, criou novos desafios para os veículos tradicionais.
Hoje, manter um jornal impresso exige reinvenção constante. É preciso competir com milhares de informações publicadas diariamente nas redes sociais, muitas delas sem qualquer verificação.
Mesmo diante desse cenário, Charles acredita que o impresso preserva características que dificilmente serão substituídas. "O jornal impresso proporciona uma experiência diferente. Muitas pessoas gostam de guardar um exemplar, revisitar uma reportagem anos depois ou simplesmente folhear suas páginas. Existe um valor histórico e afetivo que permanece."
Essa permanência também está relacionada à credibilidade. Para muitos leitores, o jornal impresso continua representando um espaço onde a informação passa por critérios de apuração, responsabilidade editorial e compromisso com a verdade antes de chegar ao público.
Na próxima coluna daremos continuidade na trajetória profissional de Charles de Sousa e sobre o periódico Folha Regional.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Folha Regional.
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