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Lúcio Vânio Moraes

204 anos da Independência do Brasil: História, pode, memória e representação

1. Introdução

Em 2026, o Brasil completa 204 anos da Independência proclamada em 7 de setembro de 1822. A data ocupa lugar privilegiado no calendário cívico brasileiro e é tradicionalmente apresentada como o momento em que o Brasil rompeu definitivamente os vínculos políticos com Portugal. Nos livros didáticos, nas comemorações oficiais, nos desfiles cívicos e nas representações artísticas, o acontecimento costuma aparecer associado à figura de D. Pedro, sobretudo à imagem do príncipe às margens do riacho do Ipiranga, erguendo sua espada e proclamando “Independência ou Morte”.

 

Entretanto, a História, enquanto campo de conhecimento, não pode limitar-se à reprodução de narrativas consagradas. O trabalho historiográfico pressupõe questionamento, análise documental, comparação de interpretações e problematização das formas pelas quais determinado acontecimento foi transformado em memória coletiva.

 

De acordo com Bloch (2001), o historiador não deve assumir uma postura passiva diante das fontes, uma vez que o conhecimento histórico é resultado de perguntas formuladas pelo pesquisador diante dos vestígios deixados pelas sociedades humanas (Bloch, 2001). Dessa maneira, estudar a Independência significa não apenas perguntar “o que aconteceu em 7 de setembro de 1822?”, mas também investigar como esse acontecimento foi posteriormente interpretado, representado e transformado em símbolo da identidade nacional.

 

Nessa perspectiva, o ensino da Independência do Brasil precisa ultrapassar a simples memorização de datas, nomes e acontecimentos. É necessário apresentar aos estudantes as diferentes dimensões do processo de emancipação política e, simultaneamente, problematizar a construção das narrativas que transformaram D. Pedro em herói nacional.

 

Conforme Chartier (1990), as representações não constituem simples cópias da realidade, mas formas pelas quais determinados grupos interpretam, organizam e atribuem significado ao mundo social (Chartier, 1990). Aplicada ao caso brasileiro, essa perspectiva permite compreender que a imagem tradicional da Independência é também uma representação historicamente construída.

 

Assim, o presente estudo parte de uma questão central: em que medida a narrativa tradicional da Independência do Brasil representa o processo histórico ocorrido em 1822 e em que medida ela constitui uma construção simbólica vinculada às relações de poder e à formação da identidade nacional?

 

2. A Independência do Brasil: acontecimento e processo histórico

 

Durante muito tempo, o ensino escolar apresentou a Independência do Brasil como um acontecimento concentrado em um único dia. Nessa interpretação, a sequência histórica parece simples: D. João VI retorna a Portugal, as Cortes portuguesas exigem o retorno de D. Pedro, o príncipe decide permanecer no Brasil, posteriormente proclama a Independência às margens do Ipiranga e, finalmente, torna-se imperador.

 

Embora esses acontecimentos façam parte do processo, essa narrativa é insuficiente para explicar a complexidade da emancipação brasileira.

 

Segundo Bloch (2001), o historiador deve considerar a duração e a complexidade dos fenômenos históricos, evitando reduzir a explicação do passado a acontecimentos isolados (Bloch, 2001). Nesse sentido, a Independência deve ser compreendida como um processo que se desenvolveu ao longo de vários anos e que envolveu transformações ocorridas desde a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808.

 

A chegada da Corte portuguesa alterou profundamente as relações políticas, econômicas e administrativas do território brasileiro. Posteriormente, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido, em 1815, modificou sua posição dentro do Império português. Em 1820, a Revolução Liberal do Porto provocou novas tensões e levou ao retorno de D. João VI para Portugal, permanecendo D. Pedro no Brasil.

 

Conforme a historiografia sobre o período, as relações entre as Cortes de Lisboa e os grupos políticos estabelecidos no Brasil tornaram-se cada vez mais tensas. O chamado “Dia do Fico”, em janeiro de 1822, foi importante nesse processo, mas não pode ser interpretado isoladamente como causa automática da Independência.

 

Da mesma forma, o episódio do Ipiranga não representou, sozinho, a conclusão imediata da emancipação política. A consolidação da Independência envolveu conflitos e disputas em diferentes regiões do território brasileiro.

 

Portanto, a Independência não pode ser entendida apenas como um ato individual de D. Pedro. Ela resultou de um conjunto de circunstâncias políticas, econômicas, sociais e militares que ultrapassaram os limites de São Paulo e do próprio 7 de setembro.

 

3. A construção do herói D. Pedro

 

Um dos elementos mais marcantes da narrativa tradicional da Independência é a centralidade atribuída à figura de D. Pedro.

 

Nos livros escolares, frequentemente o estudante encontra uma sequência de acontecimentos em que o príncipe aparece como o principal responsável pela emancipação brasileira. O “Fico”, a ruptura com as Cortes portuguesas e o “Grito do Ipiranga” são apresentados como manifestações de sua vontade individual.

Contudo, essa representação precisa ser problematizada.

Na perspectiva de Bourdieu (1989), o poder não se manifesta somente por meio da força ou da dominação econômica, mas também por mecanismos simbólicos capazes de fazer com que determinada visão do mundo seja reconhecida como legítima (Bourdieu, 1989).

 

A construção de D. Pedro como herói nacional pode ser analisada, portanto, como uma forma de produção de legitimidade política. Ao apresentar o príncipe como aquele que “concedeu” ou “realizou” a Independência, a narrativa desloca para uma figura individual um processo histórico que envolveu diferentes grupos e interesses.

 

Nesse sentido, a representação do herói possui uma função política. Ao mesmo tempo em que transforma D. Pedro em protagonista da emancipação, fortalece a imagem da monarquia como elemento responsável pela unidade territorial e pela criação do Estado brasileiro.

 

Como observa Bourdieu (1989), o poder simbólico atua justamente quando determinadas classificações e representações passam a ser aceitas como naturais, legítimas e evidentes (Bourdieu, 1989).

 

Aplicando essa reflexão ao caso brasileiro, pode-se compreender que a figura de D. Pedro não foi apenas uma personagem histórica: ela tornou-se também um símbolo político da fundação nacional.

 

4. Roger Chartier e as representações do passado

 

Chartier (1990) oferece uma contribuição fundamental para compreender a maneira pela qual a Independência foi transformada em representação.

Segundo Chartier (1990), as representações do mundo social são produzidas a partir de práticas, interesses e posições ocupadas pelos diferentes grupos sociais (Chartier, 1990).

 

Isso significa que a sociedade não possui acesso direto ao passado. O passado chega até o presente por meio de documentos, narrativas, imagens, monumentos, livros, discursos e outras formas de representação.

 

Nesse sentido, a famosa pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo, constitui um importante objeto para o ensino de História.

 

A obra apresenta uma cena grandiosa, organizada em torno da figura de D. Pedro e de sua comitiva. Entretanto, a pintura foi produzida décadas depois do acontecimento de 1822. Ela não deve, portanto, ser utilizada em sala de aula como se fosse uma fotografia daquele momento.

 

De acordo com Chartier (1990), é necessário distinguir o acontecimento de suas representações, pois diferentes sociedades e grupos produzem diferentes maneiras de compreender e representar o passado (Chartier, 1990).

 

Assim, a pintura de Pedro Américo não deve ser descartada como “falsa”. Pelo contrário, ela deve ser analisada como uma fonte histórica que revela como a Independência passou a ser imaginada e representada posteriormente.

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

 

O estudante deixa de perguntar apenas “como foi a Independência?” e passa também a perguntar:

Como a Independência foi representada?

Quem produziu essa representação?

Quando ela foi produzida?

Que personagem ocupa o centro da imagem?

Quem não aparece?

Que ideia de nação a imagem procura transmitir?

Essas perguntas transformam a obra artística em instrumento de investigação histórica.

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Folha Regional.

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